Na Estrada

Caminhava pela estrada sem poder distinguir o que via do que não via. Apenas uma imensidão branca em sua frente, com o vento sibilando forte em seus ouvidos, o barulho que ultrapassava o grosso cachecol de lã vermelha que enrolava seu pescoço. Olhou adiante. A neve batia em seu rosto furiosamente, e conseguia distinguir na paisagem somente o negro as falto que formava a linha reta por onde se deslocava, tentando encontrar um abrigo antes que a noite chegasse.

O carro estava quebrado, estacionado há alguns quilômetros atrás, e pensava agora que talvez teria sido melhor permanecer dentro do mesmo. Ao menos teria uma chance de se esquentar melhor com as roupas que trazia em sua mala, talvez se colocasse todas elas juntas conseguisse manter uma temperatura digna durante a noite. Mas decidiu colocar-se a caminhar pois sabia que o carro não possuía aquecimento, nem mesmo trazia consigo uma garrafa de álcool para se embriagar e esquecer do frio.

Colocou o casaco mais pesado que tinha, juntamente com três camadas de blusões de lão, enrolou os pés em cachecóis, deixando somente as solas dos sapatos para fora. Vestira duas calças jeans sobre o seu pijama e rezou para que conseguisse caminhar decentemente pela estrada. O cachecol vermelho no pescoço serviria como instrumento de sinalização caso algum carro fosse avistado na estrada deserta.

Caminhou. Uma hora, duas. Talvez três, quem sabe. Perderia aos poucos a noção do tempo. As lentes dos óculos cobertas de neve, tinha de esfregá-los a toda hora para poder seguir enxergando. Os lábios rachando e tremendo. O rosto doído do vento gélido que lhe assaltava sem piedade. Olhou adiante. Não podia acreditar. Um vulto negro caminhava em sua direção.

Apertou o passo, tentou gritar, chamar. Não obteve resposta, o vento engolira suas palavras. Tentou correr o mais rápido que podia, quando escorregou no asfalto e foi ao chão. Ao longe, uma pequena figura que desabava em meio ao branco cegante. Nenhuma paisagem, nenhuma árvore, apenas campos e mais campos de branco, neve por todas as partes.

Fechou os olhos. Pensou em sua família, pensou em seu companheiro. O que estariam fazendo agora, imaginou. Por um momento, sentiu-se quente, sentado em sua sala de estar assistindo desenhos animados sentado aos pés de seu pai. Tinha sete anos de idade, e as coisas eram boas e tranqüilas. Abriu os olhos. Branco.

– eu posso ajudar, se quiser.

A voz veio de um homem parado ao seu lado. Levantou o rosto para encará-lo. Ele lhe ofereceu uma mão e ajudou-lhe a se erguer. Olhou no rosto do estranho, e sua pele clara e pálida parecia uma piada de mal gosto, pois podia jurar que o homem era tão branco quanto a neve que os cercava; antes que dissesse alguma coisa, o estranho continuou:

– você não irá sobreviver. Não se não tiver ajuda.

Ele nada respondeu. Em seus olhos negros viu um  lampejo de malícia, algo que como conhecido, algo assustador. Limpou a neve do casaco, olhou para seus pés. Olçhou adiante e voltou a caminhar.

– eu posso te tirar daqui, se quiser. Você sabe disso.
Seguiu adiante, passos firmes mas lentos, lutando contra o vento.

– você pode ver o seu amante novamente, se quiser.

Abaixou a cabeça, começou a rezar. Apenas seguiu adiante, sem saber o que fazer, tentando se concentrar em uma prece a qual tinha esquecido há muito tempo atrás. O homem, eu o seguia sem a menor dificuldade, pôs-se lado ao lado com ele, cantarolando.

– ‘todos os tempos em vão, todas as vidas em vão, cordeiros de Deus, busquem a salvação’ – ele cantarolava, mexendo em algo dentro do bolso de seu casaco.

Sentia-o lhe observando, mas não ousava retribuir o olhar. Sua beleza era hipnotizante, era o homem mais belo que já tinha visto na vida. A prece estava travada, a re começava por diversas vezes, seguindo em passos firmes, um de cada vez. Pensou em sua mãe. Estava na cozinha, sentado a seu lado à mesa. Os dois comiam um sanduíche, cada um: “seu pai me abandonou porque não admitia que você fosse, nas suas palavras, um ’veadinho miserável’. Eu lhe disse: ‘a mim não me importa isto, porque ele é MEU ’veadinho miserável’”, e sorriu.  Ele sabia que era amado.

– você pode rever a sua mãe, sabe disso. Basta pedir ajuda. – tirou do bolso um rosário. – tudo o que você quiser, eu posso dar; basta que você me peça.

Fechou os olhos, tentou concentrar-se em rezar, mas não conseguia. Colocou a mão no bolso, pegou seu telefone. Olhou para a tela e viu que ainda estava sem sinal. Por um momento quis jogar o aparelho no chão e gritar com todas as forças possíveis, aliviando sua frustração.

– você é reilgioso, creio. Engraçado, mas não imaginaria você como sendo deste tipo de gente. Ao menos não quando você está na discoteca, e eventualmente se perde por cantos escuros… ou quando o seu namorado vai viajar e ‘amigos’ estão sempre disponíveis a ajudar a aliviar a sua solidão… acho que lhe conheço mais do que pensa – ele disse ao ver que o homem agora lhe encarava – oh, não faça essa expressão de indignado. Eu não estou lhe julgando, longe disso! – levantou os braços, e o rosário balançava em sua mão ao vento – quero apenas  ajudar, prometo! E você sabe que posso, mas para isso… preciso que você me peça, querido…

O vento aumentara, e em uma baforada ele foi ao chão, batendo com o rosto no asfalto. Um pequeno corte na testa, e sentiu um filete de sangue derramando-se sobre o rosto. Permaneceu em silêncio. Pensou em seu namorado, que lhe devia estar esperando em casa, a esta hora. Pensou na família, na casa. No colégio, em seus alunos. Pensou no seu bairro, nas folhas de outono caindo das árvores e como as ruas ficam escorregadias quando chove e como o café que comprava todas as manhãs lhe dava uma sensação de alegria e bem estar antes de suas aulas. Pensou nas notas que tinha de fechar no final do semestre, e aquele aluno problema o qual descobriu dentro do armário de limpeza beijando um colega…

– você acha que foi sua culpa, entendo. – o homem de preto colocou a mão sobre seus ombros – Mas não foi, ao menos não a meu ver. O rapaz é digamos… tendencioso a cumprir certos atos… alheios à vontade dele – apontou para cima. – eu não o julgo, faria o mesmo. Acho que fez muito bem em contar aos pais do rapaz. Mas claro, como poderia saber que o pai o espancaria até a morte… essas coisas não temos como prever, não é mesmo… – ele sorriu, e levantou-o com apenas um braço. De pé, ele limpou-lhe o casaco da neve. – todos nós temos papéis a cumprir, você entende, meu caro. Todos nós temos funções a seguir, você entende; e cada ação nossa possui uma reação, é claro – ele riu, abrindo os braços e apontando a seu redor. – mas é claro que, como disse, eu posso lhe ajudar – aproximou-se dele, e encostou seu rosto no dele – ah, querido, como estás gelado! – lambeu-lhe o sangue que escorrera até a mação do rosto. – seria uma verdadeiro desperdício te ver parecer aqui… um dos melhores que já encontrei, sem dúvida! Tão cheio de vida, tão cheio de vontade…

‘Pai nosso que estais no ceú, santificado seja vosso nome…’

– sabe, eu adoro vocês, realmente adoro – o vento ficou cada vez mais forte, e ao redor deles, somente via o branco, e a neve caía pesadamente, e cada vez que tocava o chão parecia que martelos batiam contra o ferro, e sua cabeça latejava e seu corpo esquentara, e sua testa suava, e olhava nos olhos negros do homem mais belo que já vira na vida… – sempre há aquela expressão nos pobres rostos de você, questionando-se “por que eu?, por que eu? “. A verdade é que você pode rezar o quanto quiser, mas na verdade, sabe que merece isso, não sabe? – ele sorria, sedutoramente.

Fechou os olhos e concordou com a cabeça.

– eu sabia. Você quer ajuda, você precisa de ajudar, não quer, pequeno pecador?

Concordou com a cabeça.

O vento parou. A estrada estava deserta mais uma vez. Abriu os olhos. A neve caía suavemente, como que em câmera lenta. O sangue em sua testa tinha desaparecido, e estava ao lado de seu carro, cujo motor estava ligado. Olhou em volta, não havia ninguém. Em sua mão, o rosário. Mordeu os lábios, sem entender o que tinha acontecido. Sentou-se no carro, fechou a porta, e voltou à estrada, sem olhar para trás. Acelerou o mais rápido que podia. O caro derrapou, saiu da estrada e bate um banco de neve; seus olhos se fecharam.

Branco.
Abriu os olhos.
Arrastou-se para fora do carro, caiu na neve.
O vento sibiliava através de seu cachecol vermelho.
Levantou-se e foi até a estrada. Limpou a neve de sua roupa, ajustou os óculos.
Pensou em procurar ajuda. Pôs-se a caminhar.

Caminhava pela estrada sem poder distinguir o que via do que não via. Apenas uma imensidão branca em sua frente, com o vento sibilando forte em seus ouvidos, o barulho que ultrapassava o grosso cachecol de lã vermelha que enrolava seu pescoço…

Na Estrada

Caminhava pela estrada sem poder distinguir o que via do que não via. Apenas uma imensidão branca em sua frente, com o vento sibilando forte em seus ouvidos, o barulho que ultrapassava o grosso cachecol de lã vermelha que enrolava seu pescoço. Olhou adiante. A neve batia em seu rosto furiosamente, e conseguia distinguir na paisagem somente o negro as falto que formava a linha reta por onde se deslocava, tentando encontrar um abrigo antes que a noite chegasse.

O carro estava quebrado, estacionado há alguns quilômetros atrás, e pensava agora que talvez teria sido melhor permanecer dentro do mesmo. Ao menos teria uma chance de se esquentar melhor com as roupas que trazia em sua mala, talvez se colocasse todas elas juntas conseguisse manter uma temperatura digna durante a noite. Mas decidiu colocar-se a caminhar pois sabia que o carro não possuía aquecimento, nem mesmo trazia consigo uma garrafa de álcool para se embriagar e esquecer do frio.

Colocou o casaco mais pesado que tinha, juntamente com três camadas de blusões de lão, enrolou os pés em cachecóis, deixando somente as solas dos sapatos para fora. Vestira duas calças jeans sobre o seu pijama e rezou para que conseguisse caminhar decentemente pela estrada. O cachecol vermelho no pescoço serviria como instrumento de sinalização caso algum carro fosse avistado na estrada deserta.

Caminhou. Uma hora, duas. Talvez três, quem sabe. Perderia aos poucos a noção do tempo. As lentes dos óculos cobertas de neve, tinha de esfregá-los a toda hora para poder seguir enxergando. Os lábios rachando e tremendo. O rosto doído do vento gélido que lhe assaltava sem piedade. Olhou adiante. Não podia acreditar. Um vulto negro caminhava em sua direção.

Apertou o passo, tentou gritar, chamar. Não obteve resposta, o vento engolira suas palavras. Tentou correr o mais rápido que podia, quando escorregou no asfalto e foi ao chão. Ao longe, uma pequena figura que desabava em meio ao branco cegante. Nenhuma paisagem, nenhuma árvore, apenas campos e mais campos de branco, neve por todas as partes.

Fechou os olhos. Pensou em sua família, pensou em seu companheiro. O que estariam fazendo agora, imaginou. Por um momento, sentiu-se quente, sentado em sua sala de estar assistindo desenhos animados sentado aos pés de seu pai. Tinha sete anos de idade, e as coisas eram boas e tranqüilas. Abriu os olhos. Branco.

– eu posso ajudar, se quiser.

A voz veio de um homem parado ao seu lado. Levantou o rosto para encará-lo. Ele lhe ofereceu uma mão e ajudou-lhe a se erguer. Olhou no rosto do estranho, e sua pele clara e pálida parecia uma piada de mal gosto, pois podia jurar que o homem era tão branco quanto a neve que os cercava; antes que dissesse alguma coisa, o estranho continuou:

– você não irá sobreviver. Não se não tiver ajuda.

Ele nada respondeu. Em seus olhos negros viu um  lampejo de malícia, algo que como conhecido, algo assustador. Limpou a neve do casaco, olhou para seus pés. Olçhou adiante e voltou a caminhar.

– eu posso te tirar daqui, se quiser. Você sabe disso.
Seguiu adiante, passos firmes mas lentos, lutando contra o vento.

– você pode ver o seu amante novamente, se quiser.

Abaixou a cabeça, começou a rezar. Apenas seguiu adiante, sem saber o que fazer, tentando se concentrar em uma prece a qual tinha esquecido há muito tempo atrás. O homem, eu o seguia sem a menor dificuldade, pôs-se lado ao lado com ele, cantarolando.

– ‘todos os tempos em vão, todas as vidas em vão, cordeiros de Deus, busquem a salvação’ – ele cantarolava, mexendo em algo dentro do bolso de seu casaco.

Sentia-o lhe observando, mas não ousava retribuir o olhar. Sua beleza era hipnotizante, era o homem mais belo que já tinha visto na vida. A prece estava travada, a re começava por diversas vezes, seguindo em passos firmes, um de cada vez. Pensou em sua mãe. Estava na cozinha, sentado a seu lado à mesa. Os dois comiam um sanduíche, cada um: “seu pai me abandonou porque não admitia que você fosse, nas suas palavras, um ’veadinho miserável’. Eu lhe disse: ‘a mim não me importa isto, porque ele é MEU ’veadinho miserável’”, e sorriu.  Ele sabia que era amado.

– você pode rever a sua mãe, sabe disso. Basta pedir ajuda. – tirou do bolso um rosário. – tudo o que você quiser, eu posso dar; basta que você me peça.

Fechou os olhos, tentou concentrar-se em rezar, mas não conseguia. Colocou a mão no bolso, pegou seu telefone. Olhou para a tela e viu que ainda estava sem sinal. Por um momento quis jogar o aparelho no chão e gritar com todas as forças possíveis, aliviando sua frustração.

– você é reilgioso, creio. Engraçado, mas não imaginaria você como sendo deste tipo de gente. Ao menos não quando você está na discoteca, e eventualmente se perde por cantos escuros… ou quando o seu namorado vai viajar e ‘amigos’ estão sempre disponíveis a ajudar a aliviar a sua solidão… acho que lhe conheço mais do que pensa – ele disse ao ver que o homem agora lhe encarava – oh, não faça essa expressão de indignado. Eu não estou lhe julgando, longe disso! – levantou os braços, e o rosário balançava em sua mão ao vento – quero apenas  ajudar, prometo! E você sabe que posso, mas para isso… preciso que você me peça, querido…

O vento aumentara, e em uma baforada ele foi ao chão, batendo com o rosto no asfalto. Um pequeno corte na testa, e sentiu um filete de sangue derramando-se sobre o rosto. Permaneceu em silêncio. Pensou em seu namorado, que lhe devia estar esperando em casa, a esta hora. Pensou na família, na casa. No colégio, em seus alunos. Pensou no seu bairro, nas folhas de outono caindo das árvores e como as ruas ficam escorregadias quando chove e como o café que comprava todas as manhãs lhe dava uma sensação de alegria e bem estar antes de suas aulas. Pensou nas notas que tinha de fechar no final do semestre, e aquele aluno problema o qual descobriu dentro do armário de limpeza beijando um colega…

– você acha que foi sua culpa, entendo. – o homem de preto colocou a mão sobre seus ombros – Mas não foi, ao menos não a meu ver. O rapaz é digamos… tendencioso a cumprir certos atos… alheios à vontade dele – apontou para cima. – eu não o julgo, faria o mesmo. Acho que fez muito bem em contar aos pais do rapaz. Mas claro, como poderia saber que o pai o espancaria até a morte… essas coisas não temos como prever, não é mesmo… – ele sorriu, e levantou-o com apenas um braço. De pé, ele limpou-lhe o casaco da neve. – todos nós temos papéis a cumprir, você entende, meu caro. Todos nós temos funções a seguir, você entende; e cada ação nossa possui uma reação, é claro – ele riu, abrindo os braços e apontando a seu redor. – mas é claro que, como disse, eu posso lhe ajudar – aproximou-se dele, e encostou seu rosto no dele – ah, querido, como estás gelado! – lambeu-lhe o sangue que escorrera até a mação do rosto. – seria uma verdadeiro desperdício te ver parecer aqui… um dos melhores que já encontrei, sem dúvida! Tão cheio de vida, tão cheio de vontade…

‘Pai nosso que estais no ceú, santificado seja vosso nome…’

– sabe, eu adoro vocês, realmente adoro – o vento ficou cada vez mais forte, e ao redor deles, somente via o branco, e a neve caía pesadamente, e cada vez que tocava o chão parecia que martelos batiam contra o ferro, e sua cabeça latejava e seu corpo esquentara, e sua testa suava, e olhava nos olhos negros do homem mais belo que já vira na vida… – sempre há aquela expressão nos pobres rostos de você, questionando-se “por que eu?, por que eu? “. A verdade é que você pode rezar o quanto quiser, mas na verdade, sabe que merece isso, não sabe? – ele sorria, sedutoramente.

Fechou os olhos e concordou com a cabeça.

– eu sabia. Você quer ajuda, você precisa de ajudar, não quer, pequeno pecador?

Concordou com a cabeça.

O vento parou. A estrada estava deserta mais uma vez. Abriu os olhos. A neve caía suavemente, como que em câmera lenta. O sangue em sua testa tinha desaparecido, e estava ao lado de seu carro, cujo motor estava ligado. Olhou em volta, não havia ninguém. Em sua mão, o rosário. Mordeu os lábios, sem entender o que tinha acontecido. Sentou-se no carro, fechou a porta, e voltou à estrada, sem olhar para trás. Acelerou o mais rápido que podia. O caro derrapou, saiu da estrada e bate um banco de neve; seus olhos se fecharam.

Branco.
Abriu os olhos.
Arrastou-se para fora do carro, caiu na neve.
O vento sibiliava através de seu cachecol vermelho.
Levantou-se e foi até a estrada. Limpou a neve de sua roupa, ajustou os óculos.
Pensou em procurar ajuda. Pôs-se a caminhar.

Caminhava pela estrada sem poder distinguir o que via do que não via. Apenas uma imensidão branca em sua frente, com o vento sibilando forte em seus ouvidos, o barulho que ultrapassava o grosso cachecol de lã vermelha que enrolava seu pescoço…

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